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Hiroshima: a cidade que nos emocionou

Como visitar o Parque da Paz e compreender a história da cidade

Hiroshima era um destino que queríamos conhecer desde a nossa primeira viagem ao Japão. Naquela ocasião, por estar mais ao sul e fora do eixo principal do roteiro, acabou ficando de fora. Mas dessa vez foi diferente — Hiroshima entrou na lista logo no início, quase como uma escolha inevitável.

É um daqueles lugares que a gente sabe que não são simples de visitar. Não pela logística, mas pelo peso da história que carrega. E, justamente por isso, havia um desejo muito claro de estar ali — não apenas para conhecer, mas para compreender.

Chegamos a Hiroshima de trem, e a primeira impressão já foi de organização e praticidade, como em boa parte do Japão. Escolhemos nos hospedar em um hotel a poucos passos da estação, o Granvia Hiroshima— uma decisão que fez toda a diferença, principalmente viajando com bagagem. O hotel é confortável e, dentro do padrão japonês, tem quartos mais espaçosos do que o habitual, o que torna a estadia ainda mais agradável.

Deixamos as bagagens no hotel e voltamos para a estação. As estações do Japão são verdadeiros shoppings e essa não era diferente, aproveitamos para procurar por ali mesmo um restaurante de Okonomiyaki, – Okonomiyaki é uma panqueca salgada japonesa feita na chapa, com ingredientes escolhidos ‘do seu jeito’, geralmente com repolho, carne ou frutos do mar, e finalizada com molhos bem característicos. O próprio nome ajuda a entender melhor: “okonomi” significa “do seu jeito” ou “como você gosta” “yaki” significa “grelhado”- o prato típico de Hiroshima que queríamos provar. Encontramos um bem avaliado e entramos, o Okonomiyaki Mitchan Sohonten. Okonomiyaki um prato muito diferente, com uma mistura inusitada de várias coisas (assista o vídeo abaixo que mostramos com detalhes), foi interessante conhecer e provar essa iguaria japonesa. Caindo de sono, com o jet leg pegando, fomos direto para o hotel, que era literalmente grudado à estação, o que foi maravilhoso para quem não conseguia mais parar em pé de sono e cansaço. 

No dia seguinte fomos para Myajima, uma Ilha mágica, aquela que tem um Tori no meio da mar (que vai ter um post só pra ela – mas que já tem vídeo no nosso canal do Youtube) e de Hiroshima é a forma mais fácil de chegar à ilha. Voltamos da Ilha no meio da tarde e fomos direto para o centro. Passamos pelo Castelo de Hiroshima (que já estava fechado) e depois para o Parque Memorial da Paz, onde ficam os principais pontos relacionados à bomba.

À medida que você se aproxima da área do parque, o clima muda de forma sutil, mas perceptível. Não há impacto imediato ou grandioso. Pelo contrário — tudo é silencioso, organizado, quase delicado. E talvez seja isso que torna a experiência ainda mais forte.

O primeiro ponto que chama a atenção é o Domo da Bomba Atômica, um dos poucos edifícios que permaneceram de pé após a explosão de 1945. Ele estava praticamente sob o epicentro da bomba e, ainda assim, resistiu. Hoje, preservado exatamente como ficou após o impacto, é um símbolo direto daquele momento. Não há muito o que explicar ali — você apenas observa. E entende.

Ao atravessar a ponte em direção ao parque, a narrativa começa a se construir aos poucos. O Cenotáfio das Vítimas da Bomba Atômica abriga os nomes das pessoas que morreram naquele dia e nos dias seguintes. Ele foi projetado de forma que, ao olhar através dele, seja possível ver o Domo ao fundo. É uma composição simples, mas extremamente simbólica — quase como se conectasse memória e permanência.

Um pouco mais adiante está o Monumento da Paz das Crianças, que foi, sem dúvida, o ponto que mais nos emocionou. Ele conta a história de Sadako Sasaki, uma menina que sobreviveu à explosão, mas desenvolveu leucemia anos depois. Inspirada por uma lenda japonesa, ela começou a dobrar tsurus (origamis de papel), acreditando que, ao completar mil, poderia ter seu desejo atendido — no caso, o de viver.

Sadako não conseguiu terminar todos, mas sua história se espalhou e acabou se tornando um símbolo de esperança e paz. Hoje, o monumento é cercado por milhares de tsurus coloridos enviados por crianças do mundo todo. É impossível não se impactar. Existe algo ali que vai além da história — é uma manifestação contínua de memória, feita por quem talvez nem tenha vivido aquilo, mas entende a importância de lembrar.

Caminhando pelo parque, outros monumentos vão surgindo — cada um com sua história, cada um trazendo uma camada diferente de entendimento. Há memoriais dedicados a médicos, professores, trabalhadores, todos representando vidas comuns interrompidas de forma abrupta. Não é uma visita linear; é quase como montar um quebra-cabeça emocional, onde cada peça amplia a dimensão do que aconteceu.

Por fim, chegamos ao Museu Memorial da Paz de Hiroshima. E, talvez, esse seja o momento mais difícil da visita.

Se o parque trabalha com símbolos e reflexão, o museu é direto. Ele mostra, sem suavizar, o que aconteceu naquele dia e nos dias que se seguiram. Objetos pessoais, roupas, fotografias, relatos — tudo ali tem um peso muito concreto. Não é apenas história; é evidência.

Caminhar pelo museu exige tempo e, principalmente, disposição emocional. Em vários momentos, a sensação é de silêncio absoluto, mesmo com pessoas ao redor. Cada sala acrescenta um novo nível de compreensão — e também de desconforto.

Saímos do museu ao anoitecer e seguimos andando pela cidade para buscar algum lugar para jantar, foi quando passamos em frente a um restaurante que estava lotado, pensamos: – deve ser bom! Só não contávamos que estava lotado somente de moradores locais e que não tinha uma alma que falasse uma palavra em inglês, o cardápio estava somente em japonês e com poucas imagens…acabamos rindo muito da situação, pedimos uns pratos aleatoriamente e claro que não combinava nada com coisa nenhuma. Pra quem queria uma experiência fora do roteiro turístico, acertamos em cheio. No final das contas conseguimos comer e tomar uma boa cerveja japonesa.

No dia seguinte voltamos para a região do Memorial da Paz porque queríamos muito conhecer o Orizuru Tower. Na Orizuru Tower, a proposta é transformar a visita em uma experiência mais ativa e sensorial. Não é apenas um mirante — é um espaço onde você participa, observa e processa Hiroshima de outra forma. No último andar do prédio você pode visitar o mirante. De lá você vê:

  • o Domo da Bomba Atômica
  • o Parque Memorial da Paz
  • a cidade de Hiroshima reconstruída

É uma das vistas mais completas da cidade e ajuda muito a entender a dimensão histórica e a transformação do lugar.

No andar de baixo o local é dedicado para fazer seu próprio origami. Você pode dobrar um tsuru de papel,  símbolo japonês de paz e esperança. Você escolhe a estampa do papel e vai. Para uma das mesas dedicadas a desenvolver essa arte. Ali, através de um passo a passo disponível em um tablet, você vai fazendo as dobraduras. Tem monitores que te ajudam, caso sinta necessidade, nós sentimos…kkk porque não é uma simples dobradura é bem elaborado e muito fácil de se perder nos passos.

Depois, você vai para o local onde o tsuro é depositado na parede de vidro que pega todos os andares do prédio dá pra ver pelo lado de fora do prédio), ali você se sente parte da história. Essa estrutura de vidro, vai sendo preenchida ao longo do tempo por cada uma das dobraduras feitas por cada visitante que passa por ali.

Com o passar dos anos, a torre já acumulou mais de um milhão de tsurus. Ver aquilo de perto muda a escala da experiência — deixa de ser apenas um gesto simbólico e passa a ser algo coletivo, quase palpável. É como se cada visitante deixasse ali um fragmento de intenção, e todos juntos construíssem uma mensagem que continua crescendo.

Ali encontramos uma brasileira, a Ariane, que trabalha no edifício e foi muito especial ter encontrado ela, a visita ficou ainda mais rica. Ariane nos contou detalhes das histórias mais incríveis do lugar. Nos contou que conheceu o irmão de Sadako – inspiração para a construção desse edifício – sobrevivente da bomba ainda vivo com 84 anos, e o quão emocionante foi esse momento  – choramos junto ouvindo a história, não tem como não se emocionar! 

Nos falou também que em 2026, pela primeira vez desde a construção do edifício,  tem a previsão de todos os tsurus serem retirados da torre de vidro e o destino deles será a reciclagem, onde serão transformados em papelaria para ser usada nas escolas, onde com esse papel é feito o diploma das crianças e as empresas compram esse papel reciclado (que não é barato) para fazer os cartões de visitas…. É lindo de ver que cada coisa tem sempre um propósito nesse país.

Para deixar o local, em vez de usar apenas o elevador, você pode descer por um escorrega que te deixa de volta no primeiro andar, é claro que descemos por ali e foi muito divertido.

É uma forma mais leve e criativa de sair da experiência. Chegando lá embaixo você encontra uma loja com souvenirs bem selecionados e com bons preços, trouxemos lembranças lindas de lá.

É um bom lugar para fazer uma pausa depois da visita ao Parque da Paz.

Dali pegamos um bondinho e voltamos para o hotel pra pegar as malas e depois pegar nosso trem para Kyoto. Base para conhecer tanto a cidade quanto várias coisas ao redor, acompanhe nos próximos posts.

Ao sair, a cidade continua ali, viva, organizada, seguindo seu ritmo. E talvez essa seja a maior mensagem de Hiroshima. Não apenas o que aconteceu, mas o que veio depois. A capacidade de reconstruir, de seguir em frente e, ao mesmo tempo, nunca esquecer.

É uma experiência difícil, mas necessária. E, sem dúvida, uma das mais marcantes de toda a viagem.

Obrigada por nos acompanhar até aqui e dar uma espadinha no mundo através dos nossos olhos!

No nosso canal no Youtube você pode ver como foi com detalhes essa nossa passagem por Hiroshima:

Thais

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